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No pain, no gain?

15-Mar-2020

Conheça a armadilha cultural e inconsciente por detrás de um dos maiores bordões da performance

Não é à toa que a frase “no pain, no gain”, difundida pela belíssima atriz norte-americana Jane Fonda, em seus vídeos de aeróbica dos anos1980, constitui uma negativa (sem dor, sem ganhos – em livre tradução). Adotado por gurus e especialistas em desenvolvimento humano, assim como muitos outros “empréstimos” dos esportes à categoria, se estivesse numa proporcionalidade positiva, o bordão certamente não teria adeptos – ex.: “more pain, more gain" (mais dor, mais ganhos – uma relação, de fato, insustentável, até para o plano das ideias).

Num plano concreto, vale observar que a dor da malhação é o próprio indicativo de resultado muscular. Grosso modo, no limiar da dor “positiva”, muitas endorfinas (hormônios associados ao prazer) são liberadas, aumenta-se o tônus do corpo e há a ativação cardiorrespiratória necessária à nossa longevidade. Já em âmbito comportamental, “dor” é emoção negativa – só incômodo e stress, que, quando intenso, libera cortisol em excesso (hormônio associado à atenção diante de um desafio, mas também ao ganho de peso e à depressão).

Dor não física
Sendo assim, nas práticas motivacionais, pensar em resultados sob a imagética de uma dor não física (porque tendemos a transpor as palavras em algo palpável) não parece ser exatamente o melhor meio de construir uma jornada rumo a qualquer meta pretendida. Em um nível inconsciente, o cenário é perfeito para autossabotagens diversas, com o nosso cérebro tentando evitar a “dor” emocional a todo instante.

Em uma reflexão um pouco mais filosófica, pode-se observar, também que nossa singularidade, por si, desmonta a afirmativa de Fonda: o que para mim é “dor”, pode não ser para você, e não necessariamente vamos atingir resultados diferentes passando pelo mesmo processo “doloroso”. Ou seja, a máxima não se sustenta, mesmo.

Argumento científico e financeiro
Para não haver dúvidas, há ainda os argumentos científicos e numéricos que hoje recaem sobre a aprendizagem e a performance a desmoralizar o bordão da atriz. Atingir uma meta, aprender ou empreender com resultados não precisam necessariamente ser algo exaustivo, como um exercício físico, e há ganhos comprovados em fazê-los por um caminho prazeroso, evitando um modelo hardcore causticante e competitivo de desempenho.

O aprendizado, por exemplo – já se sabe –, ocorre melhor sob uma intrincada rede neural em que regiões cerebrais responsáveis pela afetividade (sistema límbico, por exemplo) são intensamente estimuladas por emoções positivas. O elogio, ou reforço positivo, já é ferramenta associada ao melhor desempenho de crianças no ensino fundamental, como registrado em estudo recente e representativo, da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos.

O ambiente colaborativo é também um cenário mais positivo que o da “dor” e o da competitividade para se trabalhar. Sob as ideias de “instituições positivas” e “lideranças positivas”, respectivamente dos norte-americanos Martin Seligman (pai da Psicologia Positiva) e Kim Cameron, outro expoente da abordagem, surgem empresas de administração mais horizontal como Natura e Elektro (para citar exemplos brasileiros), em que a gestão incrementou números tornando o ambiente corporativo mais amistoso e aumentando o bem-estar dos colaboradores. Segundo Shawn Archor, outro expoente da Psicologia Positiva, nesse tipo de empresa as vendas podem melhorar 37% e a produtividade, crescer 30%.

Cultura do pecado e enriquecimento para poucos
Vale lembrar, ainda, que a expressão “no pain, no gain” é também conceito arraigado na tradição judaico-cristã, literalmente transcrita na Ética dos Pais, um tratado sobre relações interpessoais que detalha a visão da Torá sobre o tema. Para alguns, apenas traduz a ideia de que o esforço é algo positivo e será recompensado. Para outros, a lógica é a mesma de outras ideias de privação para a purificação espiritual pregadas por judeus e cristãos. De retidão na fuga do pecado, com sacrifícios terrenos em nome de uma terra prometida.

Note-se que o prazer era ideia a ser evitada na cultura ocidental até meados do século XX e a expansão industrial a qualquer custo (incluindo a exaustão e a pouca qualidade de vida dos operários, na máxima expressão da “dor” desse proletariado, e ao mesmo tempo lhes prometendo poder de compra e progresso) sustentava a economia capitalista e o crescimento de centros urbanos e nações. Dinheiro para alguns, desespero de outros. E resultados pouco consistentes em longo prazo e frente às oscilações do mercado.

Artigo originalmente publicado no site VYA Estelar, do UOL

 

 

 

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